Quaresma e solenidades da Semana Santa numa das mais antigas vilas de Portugal

As Almas no Purgatório. A arte transportada pelas mãos dos Irmãos e das Irmãs da Irmandade das Almas na Procissão do Enterro do Senhor, em São Romão. (Registo fotográfico Carlos Dobreira)

Em tempos de pandemia e de estado de emergência, o Porta da Estrela recorda um dos artigos publicados em 2017 sobre a Quaresma e Solenidades da Semana Santa na Vila de São Romão, da autoria de Carlos Manuel Dobreira.

As Almas no Purgatório. A arte transportada pelas mãos dos Irmãos e das Irmãs da Irmandade das Almas na Procissão do Enterro do Senhor, em São Romão. (Registo fotográfico Carlos Dobreira)

Foi povoada desde o final do terceiro milénio a. C., honrada e reconhecida no século XII pelos Condes D. Henrique e D. Teresa (1106) e pelo primeiro Rei de Portugal, D. Afonso Henriques (1138), teve um Mosteiro dos Cónegos Regrantes de Santa Cruz de Coimbra desde 1142 (data em investigação), possui um vasto Património Cultural e é farta de água e terra fértil.

No âmbito da Quaresma e Solenidades da Semana Santa, a Vila de São Romão, apresenta um vasto programa geral organizado pela Irmandade das Almas e Igreja Paroquial, com o apoio da União das Freguesias de Seia, São Romão e Lapa dos Dinheiros. Conta ainda com a colaboração do Grupo Coral da Paróquia, Banda Academia de Santa Cecília, Confraria de Nossa Senhora do Desterro, Casa da Juventude D. Ana Nogueira, Guarda Nacional Republicana, Fanfarra da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de São Romão, Rancho Folclórico “Os Pastores de São Romão”, Mordomos e Mordomas das Festas em Honra de São Romão, São Silvestre e São Sebastião, particulares e população em geral.

Da Quaresma

Entre 1 de março e 9 de abril, preservou-se a tradição da Amenta das Almas, que ocorre no período da Quaresma, no fim-de-semana, na transição do Sábado para Domingo. Trata-se de uma recordação em canto vocal aos que já “partiram para o outro Mundo”, derivada do cantochão cantado à capucha, segundo alguns musicólogos, e iniciada ao último toque do sino da Igreja, anunciando a meia-noite, em lugar alto, junto ao Cruzeiro da Igreja Matriz de São Romão. Este ano, o “Grupo Antigo” que entoava o canto “Amenta” não participou. Mantém-se ativo apenas o Grupo “Campainha das Almas”, o qual preserva, em fins-de-semana distintos, o canto “Grito das Almas” e o canto “Amenta”.

No dia 1 de abril, sob o tema A Reconciliação Quaresmal, evocou-se o aniversário da Irmandade das Almas, com a realização de Missa Vespertina pelas 19:00h. A Irmandade das Almas do Purgatório está organizada desde os meados do século XVII, sendo fundamentada a sua legítima existência, ao nível das fontes documentais, através da Bula Apostólica concedida pelo Papa Clemente X, em 13 de novembro de 1674. Um dos motivos desta concessão de indulgências à Irmandade encontra-se no próprio traslado pois trata-se de uma “pia e devota Irmandade e confraria dos fiéis cristãos, assim homens como mulheres, debaixo do título das almas do Purgatório, que não é tão somente de homens duma especial arte e confrades assim homens como mulheres a exercitarem muitas obras de piedade e caridade.”i Já no século XVIII, outra legitimação importante reside no Breve de Missas Privilegiadas, concedido pelo Papa Clemente XIV e datado de 3 de agosto de 1773. Ficamos a saber que nesta data, a Irmandade estava sediada na Igreja Paroquial de Nossa Senhora “da invocação do Socorro, na vila chamada de São Romão.” Resulta o Breve de Missas Privilegiadas de exposição feita ao Papa Clemente XIV, solicitando a “liberal concessão de graças celestiais de que o Altíssimo nos fizera fiéis dispenseiros…”ii, tendo em conta o hábito de celebração de Missas evocativas das almas dos irmãos falecidos, consentâneas com os Estatutos e costumes da Irmandade.

Do pórtico de entrada na Semana Santa

No dia 9 de abril, Domingo de Ramos, pelas 11:00h, ocorreu a evocação da entrada solene de Jesus em Jerusalém, com a benção dos ramos na Igreja do Imaculado Coração de Maria (Igreja Nova). Às 11:30h, decorreu a Missa Dominical com a Leitura da Paixão, sustentada com ênfase no Evangelho Segundo São Mateus.

A 13 de abril, Quinta-feira Santa, pelas 19:00h, ocorreu a Missa da Última Ceia e a Adoração do Santíssimo.

O dia 14 de abril, Sexta-feira Santa, é um dia de azáfama para o povo desta Vila. Assim, pelas 16:00h, realiza-se a Via Sacra. Às 17:00h, concretizam-se os actos litúrgicos da Celebração da Paixão do Senhor, da Adoração da Cruz e da Comunhão Eucarística. Pelas 21h, decorre a Procissão do Enterro do Senhor, com destaque para o ritual do cântico da Verónica, os motetos, a evocação In Manus Tuas Pater («In manus tuas, Pater»– Lucas 23,46.), o som das matracas, o simbolismo do andor de Nossa Senhora das Dores, o esquife do Senhor Morto sob o Páleo, as bandeiras e estandartes imponentes. Participam, entre outras entidades, a Irmandade das Almas, a Confraria de Nossa Senhora do Desterro, a Fanfarra e Bombeiros da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de São Romão, o Orfeão Estrela da Serra, o Rancho Folclórico “Os Pastores de São Romão”, os Mordomos e as Mordomas das Festas em Honra de São Romão, São Silvestre e São Sebastião. A Banda Academia de Santa Cecília interpreta as marchas fúnebres Obrigado Meu Senhor (de Carlos Amarelinho), Enterro do Senhor (de Serra e Moura), Crucifixus (de José Alberto Pina) e Hossana in Excelsis (de Óscar Navarro).

A procissão tem o seu início na Igreja Matriz (século XVI), percorrendo as ruas do burgo de São Romão, destacando-se o significado histórico das passagens pelo Terreiro de Santo António, Rua de Santo Cristo, Lamaçais, Rua de São Romão, Rua do Chão de Ferrão (local ligado à tradição da “Amenta das Almas”), Capela de São Romão (séculos XVII/XVIII) e termina na Igreja Matriz (no antigo Presbítério, eternizado pelo romance Mário, da autoria de Silva Gaio).

A 15 de abril, Sábado Santo, pelas 20:30h, decorre a Vigília Pascal com a Bênção do Cirio Pascal e da Água Batismal, o Cântico de Aleluia e a Missa Solene.

A Procissão da Ressureição e a Visita Pascal

O Sacerdote com o Senhor Exposto na Procissão da Ressureição, diante da Igreja Matriz de São Romão. (Registo fotográfico Carlos Dobreira)

No dia 16 de abril, Domingo de Páscoa, realiza-se a Procissão da Ressurreição. Às 11h 30m, o corpo da procissão sai da Igreja Matriz e percorre as Ruas de Nossa Senhora do Socorro, Silva Gaio, Praça de São Pedro, Avenida Dr. Álvaro Ferrão e Bairro do Purgatório com chegada à Igreja Nova, pelas 12h, para a celebração da Eucaristia.

A procissão é participada pela Irmandade das Almas, a Confraria de Nossa Senhora do Desterro, a Banda Academia de Santa Cecília, a Fanfarra e Bombeiros da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de São Romão, assim como população devota. Mencione-se a execução, pela Banda da terra, das marchas de procissão José e Maria (de Álvaro Reis), Transfiguração (de António Almeida da Silva, com arranjo de Amílcar Morais) e Graças ao Divino Espírito Santo (de A. Madureira da Silva).

No corpo da procissão, o Páleo é transportado pelos Bombeiros Voluntários de São Romão e o sacerdote tem nas suas mãos o Senhor Exposto. A procissão tem a particularidade de não ter andores.

Pelas 14:15h, realiza-se a Visita Pascal que abrange diversos locais da vila, a saber: Igreja Nova, Senhora do Desterro, Bairro Operário, Casal Novo, Lar Quinta do Monterroso, Largo de São Sebastião, Dorna/Talegre, Bairro Monteiro Belo, Quartel dos Bombeiros e Largo de Santo António. O costume foi recentemente recuperado e este ano é organizado pelos Mordomos e Mordomas das Festas em Honra de São Romão, São Silvestre e São Sebastião.iii

Carlos Manuel Dobreira

i Estatutos da Irmandade das Almas, erecta na Igreja Paroquial da freguesia de S. Romão, concelho de Ceia, Diocese da Guarda, Tipografia Véritas, Guarda, 1884, página 3.

ii Idem, página 7.

iii Para a elaboração deste artigo, cumpre-me agradecer a colaboração prestada por Augusto Carmo da Silva, Cristina Figueiredo, João Cruz, José António Garcia, José Saraiva, José Sério e Paulo Pina.

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