Na rota do lixo contaminado na região do Planalto Beirão

Recolha termina num «aterro mais pequeno que foi aberto para o efeito, até porque ainda ninguém sabe quanto tempo o coronavirus sobrevive nos resíduos»

Os resíduos sólidos urbanos provenientes de edifícios com pessoas infectadas pela Covid-19, nos 19 concelhos que compõem a Associação de Municípios da Região do Planalto Beirão, têm um circuito próprio e um aterro diferente.

O camião da Ferrovial, empresa prestadora de serviços da Associação, está pronto para sair do aterro sanitário do Planalto Beirão, em Tondela, às 13:00 de sexta-feira, já devidamente desinfectado e preparado para percorrer várias residências e instituições onde existem resíduos sólidos urbanos (RSU) contaminados por o novo coronavirus.

«Agora, já vou com menos medo, mas, quando o meu encarregado me disse para ir, a minha primeira reação foi não e resisti um bocado. Depois, acabei por perceber que era seguro, porque eu ia devidamente protegido e iria desinfectar sempre tudo», explicou à Lusa o condutor do veículo.

Marco Marques não esconde que «do medo inicial ainda existe algum, mas muito menos, porque no início o medo era mesmo muito». «Aliás, o medo está cá sempre, também nos ajuda a estar mais alerta», adiantou o motorista, ideia partilhada pelo seu parceiro de jornada, Marco Matos, com quem divide o camião desde o dia 6 de Abril.

As rotas não são todas iguais, «porque nem sempre há resíduos para recolher», mas na sexta-feira o camião partiu em direcção a Nelas, a um apartamento, seguindo para Seia, distrito da Guarda, também para uma casa particular, e depois para Gouveia, onde, além de uma residência, também passou pelos bombeiros e um lar.

Seguindo para Mangualde, a equipa passa pelos bombeiros, mas também no Lar de São José, em Santiago de Cassurrães, que contava na quinta-feira, segundo a autarquia, com 63 pessoas infectadas, das 73 contabilizadas no concelho.

A maior recolha do dia é precisamente aqui. Cerca de 40 sacos vão para o camião e, também por isso, Luís Almeida, que foi o primeiro a fazer a rota, deixou o conselho de se usarem contentores para que a recolha «se possa tornar ainda mais segura» e se possa «evitar amontoados de sacos» no recinto do lar.

«Este serviço é excelente. Não há outro termo, porque se eles aqui não viessem buscar os sacos este lixo iria acabar lá fora nos contentores do lixo normal», assumiu uma colaboradora do lar.

Uma iniciativa da Associação de Municípios da Região do Planalto Beirão, que «requisitou à Ferrovial um serviço extra do que é normalmente feito» e que foi igualmente louvado por moradores em Gouveia e em Viseu para onde se dirigiu o camião.

«Isto foi de uma grande ajuda. Muita mesmo, se não tinha de ir levar os sacos lá acima à estrada, porque não podia ficar aqui à porta de casa», contou à Lusa Júlia Pereira, residente numa freguesia rural do concelho viseense.

«O número de pontos de recolha, actualmente de 40, é muito volátil, embora tenha vindo a aumentar. Mas há quem deixe de precisar e outros que pedem pela primeira vez, como os bombeiros e, numa rota, somos capazes de chegar a uns 20», contou.

Luís Almeida também considerou que, «tendo em conta o número de casos positivos nos concelhos de actuação» da Planalto Beirão, o «número de recolhas é irrisório, talvez por vergonha ou por desconhecimento, apesar de ter sido divulgada» pela Associação.

O Associação Planalto Beirão é constituída por Carregal do Sal, Castro Daire, Mangualde, Mortágua, Nelas, Oliveira de Frades, Penalva do Castelo, Santa Comba Dão, São Pedro do Sul, Sátão, Tondela, Vila Nova de Paiva, Viseu e Vouzela (distrito de Viseu). Mas também do distrito de Coimbra estão Oliveira do Hospital e Tábua e, do distrito da Guarda, pertencem Aguiar da Beira, Gouveia e Seia.

«Viu as pessoas todas a olharem por causa dos fatos vestidos e da protecção? É também esta exposição que as pessoas não querem ter, mas na verdade se estes resíduos não forem levantados por nós, vão parar aos contentores normais e colocam em perigo os nossos homens e a própria comunidade onde estão inseridos», defendeu Luís Almeida.

Esta “rota de resíduos covid”, como é chamada na empresa, termina num «aterro mais pequeno que foi aberto para o efeito, até porque ainda ninguém sabe quanto tempo o coronavirus sobrevive nos resíduos».

Após sete horas na estrada, «o que nem foi mau, porque a senhora do Sátão cancelou o serviço e a de Vila Nova de Paiva ainda não tinha o saco a 2/3, que é como deve ficar» fez com que na sexta-feira o camião tivesse ficado pelos 225 quilómetros, porque o número «às vezes é bem maior».

O dia só termina quando o carro fica todo desinfectado e os colaboradores se desequipam para seguirem para casa.

«Para a semana há mais, tem de ser, pelo bem de todos», dizem.

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