A propósito de… COVID-19

José Carlos Ribeiro

O mundo está a viver uma dupla crise, na prática uma crise “siamesa”, ou seja uma crise de saúde pública e uma crise económica em simultâneo cujos efeitos estão a ser absolutamente devastadores.

Na verdade, a pandemia provocada pelo coronavírus é a maior crise mundial de saúde pública desde a gripe espanhola havendo no mundo, segundo os dados conhecidos a 20 de abril, cerca de 2,5 milhões de infetados, 170 mil mortos e existindo também já cerca de 650 mil recuperados.

A forma de combate à pandemia adotada pela esmagadora maioria dos Países tem sido a de minimizar a propagação do vírus através do confinamento das pessoas em casa, do distanciamento social e do encerramento de atividades económicas, o que levou a uma drástica contração da economia que, segundo algumas previsões, pode igualar ou ultrapassar os efeitos devastadores da II Guerra Mundial.

Perante esta crise “siamesa” surge o dilema: o que se deve atacar em primeiro lugar?

Existe um adágio popular que diz “temos que salvar vidas, custe o que custar”, mas existe também um outro ditado popular que refere que “quem não morre da doença, pode morrer da cura”.

O valor da vida é sagrado, não tem preço. Importa, no entanto, encontrar rapidamente uma forma de combater a hecatombe económica que resulta da destruição da capacidade produtiva, da diminuição do rendimento e do aumento do desemprego que irão conduzir, inevitavelmente, a um enorme agravamento das condições de vida das populações.

Embora ainda ninguém consiga adivinhar verdadeiramente a dimensão desta crise económica, de acordo com as previsões de 15/04/2020 do Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia portuguesa deverá este ano ter uma diminuição de cerca de 8% (sendo a maior recessão de sempre num só ano), o desemprego subirá para cerca de 14% e a dívida pública aumentará mais de 17 pontos percentuais ou seja para cerca de 135% do Produto Interno Bruto (PIB).

No conjunto dos Países da zona Euro o PIB deverá diminuir no ano de 2020 cerca de 7,5%, a China deverá ter um crescimento muito baixo ou até mesmo negativo prevendo-se que, a nível mundial, se verifique uma redução da produção de cerca de 3%.

Importa referir que esta crise se autoalimenta ou seja quanto mais tempo a economia estiver parada maiores e mais graves serão os seus efeitos, temendo-se que muitas das empresas que encerraram não voltem a reabrir, com os inevitáveis impactos negativos em termos de produção de riqueza e de nível de emprego, criando-se uma espiral negativa que a todo o custo importará minimizar.

É também importante evidenciar que o isolamento social é contra-natura para o ser humano pelo que o seu prolongamento por muito tempo trará consigo o agravamento ou aparecimento de doenças do foro depressivo e/ou psiquiátrico, que se juntarão à crise de saúde pública existente.

Se estas duas crises estão “entrelaçadas” é então necessário encontrar uma via que permita o seu combate em simultâneo.

Para atenuar os efeitos da crise económica é fundamental apoiar a manutenção das empresas para que o aumento do desemprego e a redução da produção sejam minimizados, pelo que são absolutamente indispensáveis todas as medidas relativas ao lançamento de linhas de crédito, ao adiamento do pagamento de impostos e contribuições sociais, bem como as moratórias a nível de pagamento de empréstimos, ou o apoio à manutenção de postos de trabalho.

O Estado, pese embora os efeitos no déficit orçamental e na dívida pública, deverá apoiar o mais possível a manutenção do rendimento das famílias para minimizar a crise social e, simultaneamente, garantir um nível adequado de procura às empresas para assegurar o funcionamento da economia.

Neste sentido, embora sendo necessário a incorporação de fatores de incerteza, é fundamental inventariar rapidamente as atividades cujo funcionamento implica um menor risco de contágio e planear a sua retoma de forma controlada, mas com a maior brevidade possível.

Embora com gradualismo é urgente planear a reabertura dos diversos setores de atividade económica, começando pelas atividades de maior proximidade às populações e, portanto, com menor impacto em termos de contágio, mas tendo a ambição de, mantendo controlo sobre a pandemia, conseguir no mais curto prazo possível abranger todas as áreas da economia e da sociedade.

Embora não existindo uma vacina contra o vírus, nem tão pouco um remédio eficaz para o seu combate e sendo absolutamente vital garantir uma resposta minimamente adequada do Sistema Nacional de Saúde à pandemia é, todavia, absolutamente fundamental que as autoridades elaborem um plano detalhado de saída, com a maior brevidade possível, deste confinamento social que, garantindo a minimização de contágios, permita também retomar gradualmente a atividade económica pois só assim será verdadeiramente possível restabelecer o funcionamento normal da sociedade.

* Economista

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