A propósito do… regresso ao “novo normal”

José Carlos Ribeiro
Economista

A crise que atualmente vivemos reveste-se de enorme complexidade, é transversal à generalidade dos países e assume uma enorme dimensão tendo, até 23/05/2020, sido infetados com o COVID19 mais de 5,4 milhões de pessoas, o que originou mais de 340.000 mortes.

A prioridade dada à gestão da crise de saúde publica, com a adoção de severas medidas de confinamento, levou a uma recessão económica brutal mas permitirá, segundo esperamos, uma recuperação tanto mais sustentada quanto menor for o risco associado a uma segunda vaga da pandemia.

De facto, as políticas de contenção têm sido absolutamente críticas para não sobrecarregar os sistemas de saúde e evitar um excesso de mortes desnecessárias, embora se perceba que quanto maior e mais duradoura for a contenção mais profundo será o impacto económico e mais longa será a recessão, sendo portanto muito difícil conseguir o equilíbrio desejável.

De qualquer modo, estão em marcha em praticamente todos os Países um conjunto de medidas de “desconfinamento”, variáveis segundo o grau de maturidade da pandemia, de modo a retomar de forma gradual a atividade económica.

Todas as tendências apontam para que a retoma de atividade incorpore alterações significativas face ao passado ou seja irá existir um “novo normal” quer em termos de comportamentos das pessoas, quer em termos de abordagem por parte das empresas, quer ainda a nível das oportunidades que irão surgir.

Um dos fenómenos que emergiu de forma muito significativa nas atuais circunstâncias foi o teletrabalho, ou seja, o trabalho a partir de casa, o que para além das questões tecnológicas que obrigou a ultrapassar, coloca também questões relevantes em termos sociais e laborais e terá, seguramente, bastantes consequências futuras.

Julga-se oportuno, a título de exemplo, explicitar as principais conclusões de um inquérito realizado entre 16/04 e 05/05 pela APROCS (Associação de Profissionais de Customer Service) a trabalhadores de Contact Center’s para avaliar a sua experiência com o teletrabalho, sendo de destacar que:

50% dos profissionais consideram que é melhor o teletrabalho do que trabalhar nas instalações da empresa/organização;

69% dos trabalhadores avaliam a sua produtividade como igual ou superior;

Os profissionais apontam como principais vantagens do teletrabalho a poupança do tempo de deslocação (81%), a redução de custo com a deslocação (75%) e a melhor gestão da vida familiar (49%);

Como maiores desvantagens são referidos o isolamento e a falta de contacto com os colegas (77%), a existência de problemas técnicos com computadores ou internet (42%) e a dificuldade de separação entre a vida profissional e pessoal (31%);

Em relação ao futuro 77% dos respondentes dizem que gostariam de continuar o teletrabalho depois do coronavírus: 45% na totalidade do tempo e 32% em parte do tempo.

Estas e outras conclusões terão naturalmente que ser incorporadas pelas empresas no seu processo de retoma da atividade “normal”.

O “regresso ao futuro” irá implicar mudanças bastantes significativas, transversais a todos os setores de atividade económica e a toda a sociedade, nomeadamente a nível das formas de convívio e interação social, nos processos de higienização e limpeza, na importância atribuída aos sistemas de saúde, área em que a telemedicina ganhou espaço, bem como ao nível de todos os processos de digitalização da economia em que sobressai a aceleração do comércio eletrónico ligando diretamente produtores e consumidores.

A nível empresarial colocar-se-ão múltiplos desafios quer para reerguer e relançar empresas e negócios, quer nomeadamente em termos da gestão eficiente de equipas em teletrabalho e sua articulação com equipas com outras formas de trabalho e com localizações diversificadas. Outras áreas de particular atenção situar-se-ão ao nível da reorganização dos espaços físicos, quer industriais, quer de escritórios, e também na necessidade de estabelecer uma mais estreita articulação entre canais físicos e canais online.

As alterações no setor dos transportes públicos (metro, autocarros, barcos, comboios) com a necessidade de equilibrar adequadamente oferta e procura e garantir higienização serão enormes e complexas, a que se associa também a necessidade urgente de relançamento do transporte aéreo.

As modificações bruscas que houve necessidade de introduzir no setor da educação deixarão seguramente marcas transformadoras para o futuro e obrigarão a incorporar definitivamente novos métodos de aprendizagem e de interação entre estudantes, professores, auxiliares, pais e encarregados de educação.

Naturalmente outros setores terão também que se adaptar a um “novo normal” nomeadamente a hotelaria, a restauração e as viagens.

Importa, todavia, dar tempo a que a pandemia se dissipe e que as transformações económicas, sociais e tecnológicas se consolidem, sendo certo que a experiência deste passado recente marcará inevitavelmente a forma como o mundo irá ser no futuro, obrigando a adaptações mas abrindo também novas oportunidades de desenvolvimento e felicidade.

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